Exposição “Cruz-Diez: cor no espaço e no tempo”

Acontece, Design

A cor como uma experiência participativa, essa é a bandeira defendida por Carlos Cruz-Diez, um mestre em cromatismos e instalações que instigam uma percepção visual diferente sobre luz, cores e formas. Um ano e meio após a abertura no Museu de Belas Artes de Houston, onde teve meio milhão de visitas, a maior retrospectiva de suas obras – que passou também pelo MALBA, em Buenos Aires – chega à São Paulo, na Pinacoteca, a partir do dia 14 de Julho.

Com mais de 120 trabalhos, a exposição celebra os 60 anos de carreira de um dos mais importantes artistas contemporâneos na ativa. Venezuelano radicado em Paris, Cruz-Diez fez parte, junto com seus conterrâneos Jesus Soto e Alejandro Otero, do Movimento Cinético dos anos 1950-60, ao lado de nomes como Abraham Palatnik, Alexander Calder e Marcel Duchamp.

Em sua longa trajetória, o artista desenvolveu uma investigação sobre a instabilidade das cores, seu caráter mutável e transiente. Na obra acima, Induction du jaune (indução de amarelo), o artista provoca uma indução cromática – técnica que explora o conceito de persistência retiniana (as cores que observamos se armazenam em nossa vista, por um breve instante). Dessa forma, pela soma entre o que foi armazenado e o que é visto em seguida, o artista induz a percepção de uma cor momentânea, no caso o amarelo, que não “existe” a menos que alguém olhe para a obra.

Na obra de Diez, as cores mudam de acordo com o ponto de vista. Mas se enxergamos uma cor que não “está lá”, isso é uma ilusão? Ou ela existe? Segundo o artista “a cor não é um pigmento em uma superfície sólida, mas uma ‘situação’ que resulta da projeção da luz sobre os objetos e de como essa luz é processada pelo olho humano”. Esse é o ponto crítico da discussão que sua obra levanta: a cor é um fenômeno, que se transforma, ela não existe em si, mas apenas aos olhos de quem vê.

As fotos acima são de Fisicromias, criações que exploram a variação cromática de acordo com o movimento do expectador ou da fonte de luz. A exposição conta com 50 trabalhos desse tipo, que ilustram estágios de evolução da série, cujas obras mais antigas eram compostas de madeira cortada e pintada à mão e peças de papelão, e que agora são feitas com tiras de alumínio e tecnologia de impressão digital. Para obter a sensação de movimento, o artista se baseia em cálculos do padrão moiré (um efeito de interferência física, que ocorre em grids sobrepostos com pequenas diferenças de ângulo ou espessura). A ilusão de ótica é uma temática explorada pela Op Art – vertente artística que deriva da arte cinética -, na qual é possível incluir Cruz-Diez.

A foto acima é de um ambiente de cromosaturação: o espaço é dividido em três câmaras, cada uma dominada por uma cor. Ao proporcionar uma experiência de imersão monocromática, essa obra busca reforçar a percepção da cor como uma atmosfera presente no espaço e não como componente de algum objeto. Sobre uma diversidade de suportes, o artista recorre a múltiplas estratégias e eventos cromáticos que apontam na mesma direção: deslocar a percepção da cor, demonstrando que ela não está nas superfícies, mas acontece no trajeto percorrido pela luz em direção a um observador.

As Transcromias, como a da foto acima, são estruturas que trabalham com os conceitos de sobreposição e subtração de cores. Por meio de lâminas translúcidas, dispostas em uma certa ordem espacial, são produzidas ricas combinações de cores, que variam de acordo com o movimento do espectador, da iluminação e da luz do dia. Com formas retas e materiais artificiais, o trabalho destaca e amplifica com simplicidade a mudança de tonalidades que acontece todos os dias, naturalmente.

Com apoio da Fundação Cruz-Diez, o artista desenvolveu, inclusive, um aplicativo para iPhone e iPad que permite aos usuários ter uma “experiência interativa de cromatismo aleatório”, ou seja, realizar seus próprios experimentos de manipulação sobre o comportamento das cores, por meio de um sistema generativo que reproduz a linguagem utilizada pelo artista.

O incrível trabalho de Cruz-Diez também usa a cidade como suporte. Na foto acima, uma obra efêmera que cobriu os tapumes durante a reforma da Casa Daros, no Rio de Janeiro, em 2011. Abaixo, o próprio artista e uma obra permanente: o pavimento integrado ao novo estádio dos Marlins, em Miami.

“Cruz-Diez: cor no espaço e no tempo”
De 14 de julho a 23 de setembro. Terça a domingo das 10h às 18h.
Pinacoteca do Estado de São Paulo – Praça da Luz, 2 – Bom Retiro – (11) 3324-1000.


ÚLTIMAS DE Acontece

PAULA NEDER - STÚDIO PN PARA LINA BOBARDI rr

Espaços integrados e peças multiuso invadem a Casa Cor Rio 2014

SR_polt_benjamim_3_4

Dpot homenageia Sergio Rodrigues e lança peça inédita

marina

Marina Linhares reúne projetos no livro “Morar é Viver”

INSTAGRAM @ARKPAD